A impermanência da vida

 

A impermanência e a natureza transitória da vida são encaradas habitualmente como negativas, algo que nos inspira temor e resistência; mas é precisamente porque tudo está a nascer e morrer continuamente que estás livre. Mesmo que queira estar apegado e preso, tal não é possível. Mesmo que tentes agarrar-te à forma como as coisas são e àquilo que possuis, não podes fazê-lo. Não é maravilhoso? Tudo parte a seu tempo; estás livre de todas as coisas, quer queira, quer não. A maior parte das pessoas temem a perda daquilo a que tem amor e apego mas na verdade a perda traz mais liberdade. (Genpo Merzel Roshi)

A impermanência e a natureza transitória da vida, para o pensador Heráclito, era identificada através da expressão “Panta Rei” cujo significado: “tudo muda”, “tudo flui”, “nada persiste”, era usado por ele como metáfora filosófica exemplificada através da experiência de pisar num rio, que em um milésimo de segundo depois de pisado já não é feito da mesma água. Essa impermanência, desde muito tempo  observada é inerente à nossas vidas, a partir da nossa própria natureza que é pura transformação. Nossos corpos mudam, nossas idéias mudam, nossos valores mudam, enfim nunca nos banhamos no mesmo rio duas vezes. Por mais resistência que tenhamos com as mudanças, elas são inevitáveis. Evitá-las pode funcionar por algum tempo, mas o “Rio” que tem vontade própria, com a força de suas águas, sempre trará mudanças com as quais teremos que lidar.

Para melhor ilustrar a impermanência e a transitoriedade da vida, trago para este  post   a delicadeza de uma antipatiquíssima arte dotada de técnica, espiritualidade e grande generosidade, praticada pelos monges tibetanos através da construção de mandalas de areia.

As mandalas de areia fazem parte de um ritual de oferenda desenvolvido pelos monges budistas, que traz à luz um dos mais contundentes além de difícil elemento da prática budista: a impermanência de todas as coisas. Sendo que o mérito do ato de generosidade na construção das mandalas de areia pelos monges tibetanos é dedicado à iluminação de todos os seres com relação a esta compreensão.

A maioria das mandalas de areia são tradicionalmente construídas e destruídas logo após sua conclusão num ritual que desde 1984, por decisão do Dalai Lama saiu dos monastérios, deixando de ser secretas, para servir como instrumento dos ensinamentos e divulgação da cultura tibetana,  ganhando assim, reconhecimento em diversos âmbitos. Este ritual é feito como uma metáfora à impermanência da vida. Depois de muitas horas/ dias de um trabalho minucioso e delicado, a areia que constitui a mandala, é varrida para o centro da mesma e colocada em uma urna. Para cumprir a função de “cura”(reconhecimento sobre a transitoriedade da vida), metade da areia é distribuída ao público presente na cerimônia de fechamento do ritual, e o restante é depositado num rio próximo para que as águas carreguem a benção de “cura” ao oceano e dele se espalhe no mundo inteiro contribuindo com a cura planetária.

O Dalai Lama diz que as divindades da mandala (areia) criam uma atmosfera de favorabilidade à paz, reduzindo a tensão e a violência. O que é para ele, um modo de plantar uma semente que terá seu efeito cármico positivo.

As mandalas tibetanas de areia, parecem ser construídas sobre padrões básicos, mas são extremamente complexas, podendo levar semanas com dedicação de oito horas diárias para serem concluídas. Para isso, os monges budistas passam anos treinando. Uma vez que o ritual é considerado muito sagrado, as mandalas não podem ser feitas por um iniciante. Portanto, antes de uma mandala ser feita, um monge deve passar um bom tempo estudando filosofia e arte. E só depois de ter alcançado um elevado nível de compreensão, a mandala pode ser criada. No mosteiro pessoal do Dalai Lama, o mosteiro Nyamgal, os monges devem estudar no mínimo três anos de filosofia e arte antes de fazer sua primeira mandala.

As mandalas são desenhadas com areia que é proveniente de um pó de mármore oriundo dos rios que descem da Cordilheira do Himalaia, que depois de moído, é lavado, secado ao sol e misturado com pigmentos não tóxicos para formar as cores principais como o amarelo, o verde, vermelho e o azul. O instrumento utilizado para que os grãos de areia sejam direcionados sobre o desenho da mandala, é o “chakpu”, ou buraco de ferro, por onde a areia escorre através da vibração entre dois instrumentos numa técnica de paciência e precisão formando os desenhos que constituem a composição da mandala.

Nos ensinamentos budistas a transitoriedade da vida necessita de cuidado através da prática do desapego. Na vida tudo passa e se transforma, como podemos observar e constatar através dos fatos, das nossa próprias experiências e pelos incontáveis resultados de pesquisas focadas no campo da transpessoalidade humana, que estamos em constante processo de evolução. Nesse processo, muitas de nossas inquietações, após algum tempo, nada mais significarão. E é ai que entra a relevância do nada fácil desapego para a “cura” dos sofrimentos da alma que, segundo os budistas, só é possível  através do reconhecimento da transitoriedade da vida, sua valorização e exercício do desapego.

Já do ponto de vista da transpessoalidade humana, viver e ser feliz são determinismos que alcançaremos na medida em que aproveitarmos bem as lições das experiências, nos tornando merecedores da gratificação pelo sucesso da aprendizagem. Concluindo: “é preciso saber viver”, buscando alcançar a felicidade dentro das circunstâncias que se têm, lidando com as frustrações de forma produtiva na busca constante de um estado mais gratificante de existir.

Beijo no coração, sejamos felizes!

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