Jardins de todos os tempos

 

Um Jardim é um espaço de fascínio para diversas culturas humanas e parece um estar de bem bilateral com a natureza. É talvez o lugar mais próximo para a celebração de um esperado contato natural. Está associado à gênese e ao final dos tempos – caminhamos nos mitos e nas religiões, de um jardim paraíso perdido para um paraíso que podemos conquistar individualmente. (Prof. Dr. Jorge Baptista)

Os primeiros jardins de que se tem notícia – com flores, árvores e lagoas repletas de peixes – são do Egito antigo, representados por desenhos em tumbas, algumas de 3,5 mil anos atrás. No entanto, é provável que os mais antigos tenham sido cridos no Neolítico, quando os homens começaram a cultivar espécies para alimentação. Desde esses tempos, os jardins representam o assentamento humano, em contraposição à vida nômade dos caçadores.

Nos jardins a Natureza é controlada, restringida e contida; por isso estão associados à paz, à tranqüilidade, à ordem e à liberação da ansiedade e da mente consciente. Por contraste, as florestas e desertos atrás dos muros ou grades dos jardins representam o caos, a desordem, o imprevisível e os medos escondidos. Em termos psicológicos mais genéricos, os jardins remetem à consciência, enquanto a Natureza selvagem denota o inconsciente.

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Os jardins são considerados refúgios dos problemas do mundo. Podem simbolizar o ideal romântico de Natureza, como os jardins aristocráticos ingleses (imagem acima), ou o ideal de ordem e regularidade, como os jardins franceses (imagem a baixo). Nas tradições monásticas cristã e budista, os jardins são locais de profunda contemplação. Podem representar o Paraíso, como no Oriente Próximo e no mundo islâmico; evocar lugares onde seres humanos viviam em estado de júbilo; ou ainda, remeter ao mundo celeste para onde vão os abençoados após a morte.

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Segundo o Engenheiro-Arquiteto Carlos Fernando de Moura Delphim, um apaixonado pela arte de criar esses espaços de deleite e fruição da Natureza, o Jardim recebeu dos persas, talvez o povo que mais amou e desenvolveu essa arte polissêmica, o nome paraídeza. No inconsciente de quase todos os povos, o conceito de jardim funde-se ao conceito de paraíso, um paraíso em miniatura criado, cultivado e mantido pelo incessante controle humano”.

Delphim é, desde 2009, coordenador geral de Patrimônio Natural do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Avesso ao olhar estritamente técnico sobre a salvaguarda dos Jardins, ele se inclina mais a percepção lírica do tema, e nos lembra que os Jardins convidam à reflexão sobre estreitas relações entre Natureza e Civilização. Em entrevista concedida à Henrique Kugler (originalmente publicada no “Sobre Cultura”, Delphin esclarece, segundo seu ponto de vista, em que medida um Jardim pode ser entendido como bem cultural: 

Quando o homem abandonou o nomadismo e passou a se dedicar à cultura da terra, ele substituiu o extrativismo pelo cultivo. A palavra “cultura”, etimologicamente, está na essência desse processo. Hoje associamos a palavra à erudição, achamos que ser culto é ouvir Erik Satie ou ler Cervantes. Mas, originalmente, o termo “cultura” se vincula ao culto à mãe terra, aos elementos da Natureza.

Em sua origem, o Jardim era um local delimitado por muros com a finalidade de proteger reservas vegetais e animais, quase sempre na presença do elemento mais precioso: a água. Mais que um lugar, o Jardim esteve associado à ideia de um estado onde o homem primordial conviveu em harmonia com todos os seres vivos, um estado puro de existência em que criador e criatura comungavam de uma forma sublime de amor. O Jardim é o símbolo mais perfeito dessa harmonia. A ruptura de tal condição sagrada resultou, miticamente, na perda do Éden, no afastamento do ser humano de uma Natureza com a qual nunca mais pode manter a relação original de equilíbrio.” 

Para  Delphin, “Hoje, somente nos Jardins, a cultura humana pode criar e manter os fragmentos de um paraíso ainda passível de ser reconstruído neste mundo. A criação de um Jardim é assim um ato simbólico, uma tentativa de recuperação do encanto do paraíso original.”

Jardins podem sugerir “paraísos”, o que nem sempre é passaporte para o belo. Jardins podem ser feios, descuidados, lúgubres, assustadores, fantasiosos, venenosos, práticos, trabalhosos, e até proibidos. O certo é que toda experiência na construção de um Jardim, ultrapassa todos os âmbitos da apreciação da Arte e da Natureza, pois um Jardim é Natureza idealizada e humanizada transfigurada em espaço de contemplação. E no que se refere a contemplação, um Jardim é um espaço onírico, onde se vivência momentos distintos da fruição da paisagem. E quanto a isso, os Jardins não devem ser associados somente àquilo que custa caro sendo acessível somente às pessoas com alto poder aquisitivo. Além de ser um bem cultural, principalmente no que tange ao domínio público, os jardins podem também ser instrumentos de cultura, que possibilitem às pessoas com recursos mais restritos, verem  e criarem belezas em suas modestas formas de habitar.

A proximidade com a Natureza, nos remete ao Paraíso, que é um lugar onde queremos estar, porque nos sentimos bem.

Abraços! Sejamos felizes!

 

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